Pequeno ensaio sobre a gratidão: Da ironia à prática | Rita Lima

Mah / 23 jan,2018 /ETC

Eis que sou convidada pela Maraisa a escrever uma coluna nesse blog que acompanho desde que a blogosfera é blogosfera.
A Mara, que todos aqui conhecem, além de ser essa pessoa admirável, também é minha grande amiga. Mas daquelas com quem falo de tudo e mais um pouco, que sabe minha vida do avesso e que sente minhas dores, que sorri com a minha felicidade e, principalmente, gargalha com cada coisinha que dividimos. Quando ela me chamou (e ainda me deixou livre para falar do que eu quisesse) só consegui sentir uma coisa: gratidão.

Ironicamente, o sentimento e a palavra “gratidão”, para NÓS, possui um abismo de significados. Antes eu não entendia, mas hoje em dia ficou bem claro para mim: o “produto” gratidão que inventaram há um tempo nunca foi comprado por nós.

“Como assim produto?” – Simples: se você tiver olhos atentos, irá perceber que a tal da “gratidão” começou a ser relacionada a uma espécie de status de sucesso. Com o aumento da popularização da “vida perfeita” nas redes sociais, a “gratidão” começou a ser vendida como uma palavra-chave que simbolizava grandes conquistas. Dê um giro pelos “instas” famosos e comprove!
“Comprei um carro do ano: gratidão”; “conquistei um corpo perfeito nessa academia top: gratidão”; “Fui chamada para um trabalho onde irei ganhar muito dinheiro: gratidão”; “comprei meu apartamento super bem localizado: gratidão”; “estou me casando com o príncipe dos meus sonhos que vai me cobrir de presentes e condições esteticamente perfeitas: gratidão”; “viajei pro Caribe, sentei em frente a esse mar translúcido em um bangalô super confortável, em posição de lótus, e meditei: gratidão”… E por aí vai.

Claro que nós, réles mortais, olhamos tudo isso e pensamos: caramba… Eu tenho boletos para pagar, meu carro precisa de reparos e meu orçamento não cobre, a porta da frente da minha casa quebrou e o soldador cobra o olho da cara, comi um marmitex bem servido e agora estou amargando uma dor de barriga… Barriga que por sinal está enorme, combinando com o resto do meu corpo fora do padrão… E aquele “disinfeliz” do meu boy/mina nem pra mandar um whats de boa noite porque ficou sem crédito no celular! Definitivamente, como serei grata a algo?

E foi nessa pegada que eu, no auge da minha falta de consciência, comecei a ironizar a palavra “gratidão”. O dia foi uma merda: gratidão. Minha saia favorita rasgou: gratidão. Mais um relacionamento foi por água abaixo e tô aqui dormindo sozinha novamente: gratidão…

Gratidão é tudo!

Até que um dia, do nada, em meio a um “estalo”, eu pensei: eita… peraí… eu realmente me sinto grata por isso. Por TUDO isso. Gente, como assim? Assim!  Vem comigo no insight e analisa tudo o que eu disse acima: tenho boletos pra pagar. Eles geram a luz que me ilumina e aquece meu chuveiro, a internet que uso como minha janela para o mundo, a água que me banho, o telefone que utilizo pra chorar minhas pitangas para as amigas… EI, EU TENHO AMIGAS! Caraca… Péra… O boleto não me parece tão ruim! Pô, companhias cobradoras, valeu. VALEU? Hein? Sim… Valeu. Obrigada. Grata. GRATA? Sim… Gratidão. Bingo!

Minha barriga fora de padrão cresceu porque tenho o que comer (e como… e bebo – me julgue). Minha porta da frente quebrou… Ei, se eu tenho uma porta, EU TENHO UMA CASA! O carro? Gente… Eu tenho um carro. O dia foi uma merda, mas cá estou em MINHA CAMA pensando em tudo o que posso achar que deu errado… EU TENHO UMA CAMA! E então o mundo à sua frente vai se abrindo, a névoa nos olhos se dissipando… E você se dá conta de uma coisa bem simples e boboca: se eu tenho do que reclamar, É PORQUE EU TENHO ALGO! Gratidão a tudo que tenho.

A gente mira nas pessoas que “estão à nossa frente” e, com isso, pensamos que não temos do que ser gratos pois não temos as “maravilhosidades” que essas pessoas têm. Mas e se olharmos “para trás”? Será que não temos muito mais do que muita gente pode desejar? Uma casa, um carro, a comida no prato, a saúde, a capacidade de andar, a roupa para vestir, o carro que te leva e traz em segurança, as amizades que te escutam, a família que te acolhe, etc… e etc… Sim. Temos. Muita gente por aí deita à noite e reza com muita fé para pedir exatamente o que nós temos hoje. Arrisco até dizer que você mesma(o) já passou dias em agonia, sonhando em ter ou viver exatamente o que tem/vive hoje. Se você chegou no objetivo e sente que falta mais coisas ou que algo está incompleto, PARABÉNS: você passou de nível no jogo da vida. Agradeça.

Seja grato, sempre!

Querer sempre mais não é problema algum. Problema mesmo é não entender que todos os dias somos agraciados por toda a sorte de coisas que TEMOS, mas que passam despercebidas pela cegueira do ego. Mas a boa notícia é: nunca é tarde para exercitar o olhar sob o mundo que tens. Se ainda não está como queres, irá melhorar, isso é fato. Também é fato que haverão problemas… E soluções… E depois mais desafios… E que é assim que o ciclo da vida se dá. Se você olhar direitinho, não existe a plenitude “plástica”, existe a nossa projeção sobre as coisas que, se não saem como queremos, então “não tem validade”. Mas tem valor, acredite. A vida é cheia de pequenas coisas que estão esperando pelo teu sorriso mais sincero e, com o coração mais puro, reconhecer que pequenos milagres acontecem o tempo todo para quem está aberto a eles. Respire fundo, observe… E se te tocar o coração, não tenha medo de agradecer por isso. Pode encher o peito e bradar: GRATIDÃO! O universo agradece, acolhe e devolve em dobro. Acredite!

Gratidão e amor a quem acompanhou.
Rita Lima (@rituxalima)

 

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